Declarando sua sincera vontade de "acertar no serviço de Sua Majestade",
enfatiza o governador Luís César de Meneses que não era possívelnem desejável
vedar quaisquer dos caminhos gerais para as minas e que se devia conceder a
liberdade de entrar e sair delas pelos referidos caminhos a todos e a tudo, de
forma geral ou combinada com algumas condições e limitações. Referindo-se
em particular ao Caminho do Rio de São Francisco, elabora um grande arrazoado
para justificar a suspensão desse interdito, batendo no argumento mais
geral de que nada, até aquele momento, havia conseguido fazer com que fosse
suspenso o trânsito através dele.Afirmando que os lavradores de cana não abandonariam
suas atividades em função do rush minerador e deixando de lado o
problema da defesa das capitanias do Norte, o autor reduz toda a questão doscaminhos à evasão fiscal dos quintos. Argumenta que o papel exercido pelo
Caminho do Rio de São Francisco no abastecimento das minas - com relação a
escravos, tecidos, gado, cavalos, sal e farinha principalmente - até então, basicamente
dePendente da região Norte, não poderia ser suprido, em preços equivalentes,
pelo Rio de Janeiro. E salienta, no que se refere ao gado, o seu significado
de mercadoria com a qual nem o Rio de Janeiro nem São Paulo tinham condições
de abastecer as Minas.
Finalmente, sugere que se deveriam estabelecer casas de fundição nas paragens
mais adequadas dos ditos caminhos, com oficiais de reconhecida fidelidade e
guarda própria, sem mais qualquer aparato controlador, nem mesmo guardas
pelos caminhos, obrigando-se, por lei "expressa", a todos que saíssem das minas a
fundir, quintar e registrar todo o ouro que trouxessem consigo, sob pena de que
toda pessoa ou pessoas que dos limites da dita casa ou casas para baixo se
acharem com ouro por quintar, por marcar e sem os sinais que nas barras se
mandarem pôr o percam para o fisco e para quem os denunciar, e isto se deve
entender com toda qualidade de pessoas em cuja mão se achar o ouro, ou
seja trazido por elas das minas, ou comprado a terceiro nas praças ou de
qualquer sorte que lhe viesse à mão, sendo por quintar, seja por essa razão
perdido. (Das Villas, p. 465i)
Ainda na análise do manuscrito Das Villas, é preciso considerar também o
lugar de sua produção. Seu autor nos fala da Bahia, de Salvador precisamente, e
é ele próprio quem confere aos paulistas a descoberta do caminho de ligação de
São Paulo pela via do sertão com as capitanias do Norte. Caminhos que foram
melhorando e provendo os primeiros recursos de infra-estrutura - possivelmente,
como já se disse, uma antiga trilha indígena. Vale aqui reproduzirmos a
epígrafe que abre este estudo:
Das Vilas de São Paulo para o Rio de São Francisco descobriram os Paulistas
antigamente um caminho a que chamavam Caminho Geral do Sertão, pelo
qual entravam e cortando os vastos desertos que medeiam entre as ditas
Vilas e o dito Rio nele fizeram várias conquistas de Tapuias e passaram a
outras para os sertões de diversas Jurisdições, como foram Maranhão, Pernambuco
e Bahia, sendo para todas geral o dito caminho até aquele termo
fixo que faziam nesta, ou naquela parte do Rio de São Francisco, em o qual
mudavam de rumo conforme a Jurisdição, ou Capitania a que se encaminhavam,
ou conveniência que se lhe oferecia; e com tão continuada freqüência
facilitaram o trânsito daquele caminho que muitos deles transportando por
ele suas mulheres e famílias mudaram totalmente seus domicílios de São
Paulo para as beiras do dito Rio de São Francisco, nas quais hoje se acham
mais de cem casais, todos paulistas, e alguns deles com cabedais muito grosso.
Em outro tópico do manuscrito, o autor volta a confirmar a primazia dos
paulistas na ocupação das beiras do rio São Francisco. Tratando da suspensão
do interdito do Caminho do Rio de São Francisco, após a afirmação de que esse
caminho para a entrada nas minas é melhor que o do Rio de Janeiro e o de São
Paulo, argumenta que, na volta, esse caminho é também melhor. A razão seria o
fato de que nas matas das minas se fazem "grandes e boas canoas", podendo os
viajantes embarcar no rio das Velhas, entrar no rio São Francisco e chegar em 15
dias à cachoeira de Paulo Monso. Para o governador, esse meio de transporte,
"breve, suave e de pouco custo", é o preferido por evitar a compra de cavalos
que, nas minas, em razão do preço alto e porque acabada a viagem, os viajantes
os vendiam pelo dobro do preço de compra. E considera:
[...] pois só nas matas delas [minas] se fazem todas as de que se usa no Rio de
São Francisco da dita cachoeira para cima, porquanto só naquela parte há
paus capazes de as fazerem, e antes de se tirar ouro naqueles distritos asfaziam
osPau listas epor negociação as vinham vender pelo rio abaixo. (Das Vil/as, p.
463p, grifo nosso)
Após considerar por vários ângulos a superioridade do Caminho do Rio de
São Francisco sobre os demais caminhos, tanto para a entrada quanto para a
saída das minas, como argumento final, e contundente, para demarcar a inviabilidade
do interdito em vigor, refere-se o Governador ao fato de os viajantes
encontrarem nesse caminho facilidade de hospedagem e outros provimentos.
Para isso, esclarece ao rei que
o Rio de São Francisco desde a sua barra que faz no mar junto a Vila do
Penedo até a barra que nele faz o Rio das Velhas, em cuja altura se achavam
as últimas fazendas de gados de uma e outra banda do Rio de São Francisco,
não tinha parte despovoada, nem deserta, tendo às suas margens, ou próximo
a elas, várias povoações.
3 comentários:
Muito interessante. Riquesas naturais pareçem sempre atrasar o desenvolvimento dos estados e países...Vide MG, RJ, os estados do Norte e até mesmo países como os do oriente médio.
É preciso muito cuidado com esses bens da natureza que inebriam e muitas vezes enriqueçem poucos e impedem o desenvolvimento...
São Paulo nunca teve esse privilégio, tudo que tem deve-se a produção. Pareçe até que a paisagem discreta e nossa melancólica garoa favoreçem o impeto dos trabalhadores e produtores incansáveis.
Sou Pernambucano de nascimento mas paulista de todo coração.
Cada vez mais cresce minha admiração por esse estado e pelo cavalo Mangalarga que participou grandemente do seu desenvolvimento.
Mas no caso o assunto é a outra face das minas ,aquela voltada para o mercado interno e sua redes de caminhos que interligou o Brasil.
Um local comum a quase todos os caminhos era a Encruzilhada ou Cruzilia, perto de Baependi, terra onde nasceu a família Junqueira e o cavalo Mangalarga.
Era onde o caminho velho de São Paulo o caminho novo do Rio de Janeiro e o caminho de Paraty se uniam para as minas .
Era também próximo do caminho geral do sertão, que ligava São Paulo ao sertão do São Francisco.
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